Entrevista Especial com o produtor musical mais Rock'n'Roll de Belém: Ivan Jangoux

Ivan Jangoux (http://listn.to/IvanJangouxProducoes) é um grandes produtores da música paraense. Ele já foi guitarrista de várias bandas renomadas do rock paraense, entre elas a Stigma. Saiba o que pensa esse músico de alta estirpe nessa entrevista exclusiva e especial.

Como foram as tuas primeiras experiências como músico? E também quais foram os melhores momentos?

Antes de ser produtor, fui guitarrista do Nekrofilya antes de gravarem o CD deles, depois fui guitarrista do Stigma durante 8 anos e depois, do Meffista. Todos meus melhores momentos foram no Stigma: viajamos bastante, gravamos nosso CD fora, conhecemos muita gente. É difícil apontar alguns poucos momentos, pois foi pelo Stigma que eu e minha esposa nos conhecemos e nos aproximamos, foi lá que aprendi muita coisa que sei de música e produção e foi lá que dediquei boa parte do fim da minha adolescência e início da vida adulta. Mas um momento que nunca vou esquecer é quando o público puxou a saia da minha esposa em Barcarena, tentando agarrar ela no fim da última música do show. Tive que agir de forma meio violenta com o grupinho, dando uma voadora, e depois ainda recebi um pedido de desculpas das pessoas que fizeram isso. Tem também o açaí que ganhamos de graça num restaurante quando fomos a SP gravar o CD, por sermos paraenses. E tem o lançamento da nossa primeira demo: compramos 200 sacos de pipocas pantera e demos um pra cada pessoa que entrou lá no Espaço Cultura Ná Figueiredo pra assistir ao nosso show. Os 200 sacos se acabaram e ficou gente do lado de fora pedindo. Os ensaios nas tardes de domingo. O pós-show com a galera do Turbo e Crashdown no Batistão…

Como começaste a trabalhar como produtor musical? E o que levou para esse caminho?

Ainda durante a existência do Stigma, comecei a fazer umas pequenas gravações da banda. Alguns amigos gostaram, e comecei a oferecer meus serviços à poucas pessoas. Gravei a música ‘Closer’ do Step2, que fez um bom sucesso no meio, e isso me inspirou a ir estudando e conhecendo mais sobre produção e gravação. Quando gravamos nossa primeira demo, a mix ficou uma porcaria, então comecei a mexer pra tirar um som melhor, e ficou! Fui gravando uma banda ali, outra aqui, o negócio foi ficando mais sério e quando vi já estava trabalhando nisso de verdade.

O que e quais bandas você poderia destacar do rock paraense?

Pra ser 100% sincero, fazia um tempo que eu estava distante do rock paraense. Depois que o Stigma acabou, minha primeira filha nasceu, e com filho tudo muda. O último show que vi, foi do Dharma Burns a uns 2 anos!  Então eu conheço mais o pessoal que vem gravar comigo, e dou sorte de geralmente gravar bandas que acabo achando o som legal. Voltando a pergunta: eu gosto da nova fase do Turbo, gosto dos shows do Sincera que vejo pelo Youtube,  gostava do Ataque Fantasma (que nem sei se ainda existe), ouvi a demo do A Red Nightmare e achei uma das bandas de metal mais organizadas e estruturadas daqui que já ouvi. O Aeroplano no novo CD  também está bem, o próprio Dharma Burns é uma banda que acho muito boa (e estou produzindo o novo CD atualmente). E tem o Johny Rockstar que tá com um CDzão pronto há dois anos e parece que finalmente o produtor da banda, Bernie Walbenny, vem pegar pra mandar prensar.

Como tu avalias o mercado da produção musical no Brasil?

Complicado. Ando conversando com alguns colegas de fora, como o Jera Cravo e o Fábio Baumann da Canil Pro Áudio, e todo mundo está meio que na mesma. Os produtores e técnicos são  o último ponto da cadeia, então profissionalmente falando, somos os que mais penam. O artista reclama que não tem dinheiro, e mesmo quando tem, já chega com a gente chorando pra baixar preço, isso e aquilo. Agora, como um técnico ou produtor se mantém? Um software como o Cubase 6 ou o Pro Tools 9 está na faixa de $400, uma interface de áudio boazinha não sai por menos de R$2000, sem contar microfones, outros softwares, tratamento acústico, despesas com contas, instrumentos do estúdio, e a nossa própria família. É difícil conseguir proporcionar um trabalho de qualidade sem um certo custo. E isso é ainda mais dificultado pela galera que não investe nos seus equipamentos, usa somente software pirata, não investe em si como profissional e cobra um preço lá em baixo. Ai o cara que investe, estuda, se esforça tem que derrubar seu preço pra conseguir o cliente. E ainda tem mais uma coisa: com a internet e a facilidade de se baixar software pirata, ‘todo mundo’ virou produtor agora. O cara baixa o Logic ou o Nuendo de algum site de torrents, uns plugins da Waves, usa o preset pronto que vem no programa e acha que já é produtor, esquecendo que tem muitas técnicas por trás disso. Ai você me diz ‘Ah, mas o músico sabe que isso não tem qualidade…’. Pode até saber, mas digamos que 60%e não tá nem ai. Com produto de baixa qualidade, por mais barato (ou de graça) que seja, você não ajuda as bandas e ainda quebra o mercado de uma galera que rala muito. E ai eu incluo o pessoal que grava ‘de graça’ a partir de recursos obtidos através de leis de incentivo, pois isso não desonera ninguém de gravar e produzir com qualidade, senão vira jogo político: quem tem mais força política consegue participar do mercado, e não quem tem qualidade. E não é por ai.

Uma prova disso tudo que acabei de falar é que vários estúdios histórias nos EUA e na Europa estão fechando as portas. Não é no Brasil, nem em Belém, mas se lá que tem um mercado estabilizado, as bandas tem muito mais facilidade pra conseguir recursos e sempre existiu um mercado de verdade, está acontecendo isso, o que se pode esperar do Brasil? Isso me preocupa bastante e toda a galera da área deveria parar para refletir nisso.

Falando em política, é bom ressaltar que nós não temos sindicato, não termos normas, não temos quem lute pela gente. Ora, sem querer desmerecer as prostitutas, se até elas tem um sindicato, porque nós técnicos e produtores não temos? Em vez de ser um meio desunido, que um vive pra tentar passar rasteira nos outros, era mais jogo tentar ganhar alguns direitos. Um mínimo por hora, reconhecimento da profissão pelo INSS (se você tenta se inscrever como empreendedor individual, não existe a profissão ‘técnico de áudio’ ou ‘produtor musical’), essas coisas. Produtores e técnicos tem que ter voz não só pra falar mal da concorrência, mas também pra criticar e lutar por um mercado mais justo! Uma vez fui testemunha de uma ação no Ministério do Trabalho e ouvi a juíza dizer que ‘gravar CD não garante direito nenhum como empregado’. Ou seja, quem é técnico ta basicamente a mercê do acaso. Ai também que eu acho que as associações também poderiam entrar: nós fazemos parte do mercado, e nos ajudando, as bandas são ajudadas – é um jogo de reciprocidade. Porque não chamar os donos de estúdio pra formar parcerias e descontos com a galera do rock?  NINGUÉM iria sair perdendo.

Quais são os teus próximos projetos?

Bem, estou produzindo o CD da minha esposa, Iza Haber, que vem sendo um grande desafio pra mim, pois são estilos e texturas que não tenho costume de ouvir e trabalhar, mas que está ficando muito bom. Em breve também estarei começando junto ao Turbo a pré-produção do CD deles, estou conversando com o Sincera, estou conversando com o Andro do Baudelaires, fui convidado pra uma banda…Mas o maior dos projetos é conseguir se estabilizar financeiramente nessa profissão. Terminei minha faculdade em Ciência da Computação no ano passado, que tinha parado em 2005 por conta da música, esperando conseguir um sustento mais estável. No entanto, ninguém quer um cara chegando aos 30 sem experiência. Então, por enquanto vou ralando, torcendo pra pegar mais bandas de rock, pois são elas que são as mais apaixonadas e se importam mais com seus trabalhos – além de dificilmente darem calote ou causarem outros tipos de problema, o que não é raro fora do rock. Mas o futuro, e os próximos projetos, dependem de muita coisa.